CONFIRA A ENTREVISTA COM PEBA!

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29 de ago de 2010

Sobre quase-vírus econômicos que dançam

Me perguntaram esses dias:
vcs estão em cartaz?
eu: sim, sim!! Vilha Velha, 01 e 02 de Setembro, às 20h, etc etc...
e continuou: Qual o projeto?
eu: veja bem, não há nehum projeto por detrás não. O projeto está acontecendo pari pasu. Vamos fazendo a medida que conseguimos nos organizar para. Ou seja, não tem apoiador ou lei de incentivo ou edital... estamos trabalhando, como sempre trabalhamos.
e: mas pauta, produção... é tudo por conta de vcs?
eu: sim, sim! É!
e: que bacana! Já fiz coisas assim tbm, acho importante, tal tal....

Esse pequeno relato é pra ilustrar sobre uma coisa que vem me passando já algum tempo.

[veja só, "que tolice nós brigarmos tanto assim"...]

Esse tipo de pergunta/resposta de uns tempos pra cá tem sido estranha aos nossos ouvidos e experiências. Grupos não produzem mais sem o dito edital. Por sua vez, o edital tbm não deixa ninguém produzir por conta dos atrasos de pagamentos, projetos que nunca se encerram, coletivos se multiplicam para atender a todos os editais: O NEGÓCIO É PRODUZIR MAIS PROJETOS!
Ainda hoje, li um email tbm que falava dessa coisa de economia da Dança. Na verdade, não é nem sobre o tal seminário que está pra acontecer na cidade... Era um relato de um artista nacional que recusou o convite de pré-estréia do trabalho dele feito por um festival. O artista alegou que achava absurdo o valor de R$ 2500,00 - que com os descontos todos de impostos chegaria a R$ 1850, para pagar o seu trabalho. Sendo que os custos de transporte, produção, etc não seriam cobertos com esse valor (e de fato não pagam!!!). Mais espantoso, foi ler o trecho em que ele dizia que os organizadores do festival alegavam que o valor-merreca era uma política dos festivais no Brasil e que R$ 5000 para cachê de um solo no Brasil não existia (Além de tudo, mal informado o tal festival. O quarta que dança paga R$5000 por uma apresentação). Esse email foi repassado por tantos outros até que pela fonte que me chegou o remetente questionou justamente sobre a tal economia na dança, ou ainda sobre o momento atual em que tanto estamos falando sobre isso.

O engraçado é que é tão espantoso ouvir sobre o fato do CoMteMpu's está em cartaz por uma produção totalmente independente quanto é tão espantoso ouvir sobre o cachê-merreca pago pelos grandes festivais nacionais. Fico me perguntando como produtor independente, como diretor, como artista e até mesmo como professor-pesquisador como é possível produzir Dança nesse país? Quando estamos diferentes dessas situações? Algum artista da Dança consegue apontar algum momento em que se sentiu dentro de uma economia da Dança estável? Mas também perguntemos: mesmo com todas essas possíveis respostas não, ou quase-nãos, deixamos algum momento de fazer-dançar?

Poderia apontar muitos momentos em que o CoMteMpu's disse não a um ou outro evento ou festival nacional/internacional pelo mesmo motivo já citado, mas acho que o exemplo ai do artista V.I.P nacional já basta.

Independente se eu como carne ou feijão, se meu fogão é de seis bocas ou quatro, os dois casos já parecem no mínimo problematizar o tal problema da economia da Dança, e parecem ser problemas de interesse público. Para além da cozinha, a gente dança para manter a tal economia da Dança?

Num dos eventos do ano passado em que fomos convidados a falar sobre redes colaborativas o tal assunto tomou conta novamente [É quase um vírus ou retrovírus]. Estavamos nós falando sobre as maneiras que trabalhávamos em colaboração... esse nosso costume [ruim] de fazer sem dinheiro, trabalhar pela manutenção da linguagem e do desejo de estarmos juntos. Em suma, dizia que trabalhavamos com o sem edital, com ou sem apoio. Daí, uma criatura defensora da tal economia da Dança tomou minha fala pra dizer que era absurdo esse tipo de atitude. Ainda mais: disse que era por conta disso que a tal economia da Dança não cola ou não funciona ou não se estabiliza: porque trabalhamos de graça - segundo ela. O que ela chama de trabalhar de graça, acrescentasse ainda: trabalhamos de graça para nós mesmos, para o nosso desejo de ser grupo. Nesse caso, nem sei se cabe dizer se é graça ou se pago: acho que a gente trabalha. Sendo assim, sugiro a errata: trabalhamos para nós-donos - e isso também me parece coisa da economia da Dança também: Ela parece está em todo lugar, um quase-vírus!

Me parece também que não é por conta de atitudes dos que dançam para si que a tal economia da Dança não funciona. Também não direi que o desejo de estar junto e produzir a partir das zezices (aparentes futilidades da convivência) que a tal economia não evolui e contagia toda a multidão. Talvez essas nossas atitudes sejam quase-anticorpos que dançam e parece que necessitamos produzir um pensamento sobre a tal economia a partir de quase-anticorpos-econômicos que dançam.

Ta puxado?

Se pensar economia da Dança é o que faz redes colaborativas se unirem para criar critérios merrecas para cachês-merrecas em festivais, é também o que incentiva coletivos a se formarem para virarem usinas de produção de projetos desacelerados, é o que condena ou "estranheiriza" o fato de pessoas se juntarem para produzir Dança inpendentemente de isso está alimentando uma cadeia direta de produção, então, digo que é necessário a criação anticorpos para o suposto vírus de pensar a economia da Dança. Lembremos que o anticorpo é formado após o processo de invasão. Deixa o vírus vir então!



sRG_Andrade


Um comentário:

sRG disse...

citação anônima: "eu acho que não vou conseguir me estabelecer financeiramente..."