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16 de abr de 2014

Dos laços que se desdobram: CoMteMpu's, Lugar Comum e as Cidades



Em dezembro de 2012, realizamos uma edição das Zonas de Ocupação Urbana, a ZeZOU v.3, na cidade de Recife e convidamos o Coletivo Lugar Comum (PE) para colaborar conosco na residência. Foi uma experiência muito rica que atravessa tanto o pensar/agir a cidade e na cidade de Recife como também a construção de laços afetivos entre artistas que transitam pela cidade.

Meses se passaram, pouco mais de um ano, e hoje o Lugar Comum segue seus caminhos realizando outras ações pelas ruas... Na matéria abaixo, no Jornal do Comércio Online, Roberta Ramos (integrante comum) comenta sobre os novos projetos do Coletivo e faz uma curta citação a esse momento em que estivemos juntos.

Leia "O RISO COMO FORMA DE PROTESTO" aqui: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/suplementos/jc-mais/noticia/2014/04/14/o-riso-como-forma-de-protesto-124682.php


Coletivo Lugar Comum usa o riso como forma de protesto na performance Motim / Edmar Melo / JC Imagem
Coletivo Lugar Comum usa o riso como forma de protesto na performance Motim

Que maravilha saber das novas e saber que colaboramos, de alguma forma, ainda que remotamente, com os desdobramentos do Lugar Comum! Que os comunas sigam rindo pelas ruas!

E já que deixei escapar aqui o trocadilho entre "comuns e comunas" (esse último fazendo ecos a Marx e Engels), e já que estamos falando de arte, política e motim, vou citar aqui algumas passagens que podem, talvez, desdobrar uma conversa.


A primeira delas vem do Manifesto Comunista, de Marx e Engelsrecentemente relançado numa nova tradução pela Boitempo Ed. em 2010. Outro dia, numa madrugada de leitura, eu (Sérgio) postei um trecho na minha timeline no facebook e Cyro Morais (tbm integrante comum) me perguntou de onde havia tirado:

"(...) Em virtude da concorrência crescente dos burgueses entre si e devido às crises comerciais que disso resultam, os salários se tornam cada vez mais instáveis; o aperfeiçoamento constante e cada vez mais rápido das máquinas torna a condição de vida do operário cada vez mais precária; os choques individuais entre o operário singular e o burguês singular tomam cada vez mais o caráter de confrontos entre duas classes. Os operários começam a formar coalisões contra os burgueses e atuam em comum na defesa de seus salários; chegam a fundar associações permanentes a fim de precaverem de insurreições eventuais. Aqui e ali a luta irrompe em motim" (MARX, ENGELS, 2010, p. 48).


Um segunda, é de Pablo Neruda, em Prólogos (2002):

"O caminho da poesia vai para fora, pelas ruas e fábricas, escuta todas as portas dos explorados, corre e adverte, sussurra e congrega, ameaça com a voz pesada todo o futuro, está em todos os lugares das lutas humanas, em todos os combates, em todas as campanhas que anunciam o mundo que nasce, porque com força, com esperança, com ternura e com dureza faremos com que ele nasça. Nós, os poetas? Sim, nós, os povos!"(NERUDA, 2002: 40-41).


A terceira é uma citação um pouco mais longa, em tom de "perguntas" a partir de André Lepecki em Coreopolítica e Coreopolícia (2012)que por sua vez faz referência a Hanna Arendt em The Human Condition (1998):

"O urbano, como espaço construído por tangíveis imóveis de acordo com a estrutura incorporal da lei, seria o suporte material necessário para conter a efemeridade, a precariedade,  o deslimite e a imprevisibilidade ontológica da política, ou seja, do agir que tem como produto apenas agir. Tal como em Martin, tal como em Hewitt, não se trata aqui de metáfora: a ação política se equipara mais uma vez à dança, e é isso que faz com que seja necessária a construção do urbano como espaço de contenção arquitetônica e legal da dança-política:


(...) o que é peculiar na ação política é que, ao contrário dos espaços que resultam do trabalho de nossas mãos, a ção não sobrevive à atualidade do movimento que a trouxe ao mundo, mas ela desaparece não apenas como dispersão dos homens, mas com o desaparecimento ou a paragem das próprias atividades (ARENDT, 1998, p. 199).

Conconstitutivas uma da outra, poderiam dança (ou ação política imaterial) e cidade (fazer legislativo-arquitetônico material) encontra-se e renovar-se numa nova política do chão, numa coreopolítica nova em que se possa agir algo mais do que o espetáculo fútil de uma frenética e eterna agitação urbana, espetáculo esse que não é mais do que uma cansativa performance sem fim de uma espécie passivamente hiperativa, poluente e violenta que faz o urbano se representar ao mundo como avatar do contemporâneo?" (LEPECKI, 2012, p.48-49).




Essa última passagem de Lepecki lembra, inclusive, algumas das perguntas que nos fizemos durante a ZeZOU v.3, em uma de nossas reuniões no Espaço do Lugar Comum. Após realizarmos as cartografias pelo centro da cidade de Recife, entendemos que no meio de todo aquele emaranhado urbano não deveríamos retornar às ruas com mais poluição visual, mais barulho, mais um carro alegórico, mais um frenesi, etc. Optando pelo silencio e pelo adiamento, realizamos uma ação na Rua Nova que se dava numa caminhada em grupo extremamente lenta e em silêncio (para se ter uma idéia, para atravessar a Rua Nova até o fim não se gasta mais do que 2min. Nossa caminhada durou cerca de 2h30min). Havia um jogo coreográfico também entre paragens, balbulcios afônicos a partir dos comentários que ouvíamos durante nossa passagem e eventuais berros coletivos, esse último somente quando acometidos de algum ato violento fosse diretamente entre nós e outros transeuntes ou ainda com algum gesto de violência com arquitetura local. Também na Ponte Duarte Coelho, fizemos uma farofa, ou melhor, um encontro entre amigos e transeuntes, que se deslocava de acordo com a margem entre luz e sombra da passagem do sol. Alguma horas apenas ali, ocupando uma ponte, conversando com pessoas, jogando tarô, construindo a cidade, ou ainda, fazendo-a dançar.




[Outras fotos da ZeZOU v.3 estão publicadas em nosso Z9, lançado na ZinLov 214 em Março em Salvador pela SRG e VERGARA. Em breve divulgamos aqui um videozinho, que ainda está sendo editado].

Muitas danças na cidade podem ser pensadas na tensão entre essas citações, incluisve avaliando quando que nossas ações artísticas propõe intervenções nos modos de pensar-fazer-agir cidade.
Outras conversas por vir! Enquanto isso, esperemos o Motim, dos comunas, que vem aí!

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